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29 de mar de 2011

Guarapuava tem dois sargentos Garcia

Preguiçoso, o sargento Garcia entrou para a história da TV e do Cinema como um fanfarrão. Não sem razão, já que era de uma incompetência notória. Nos últimos dias, uma declaração infeliz do procurador geral da Prefeitura de Guarapuava, Luciano Batista, me fez lembrar do sargento Garcia, aquele que sempre tentava, atrapalhadamente, prender o Zorro.
Pois o procurador, acerca da segunda tentativa de efetuar um concurso publico, andou dizendo à Imprensa local que, diante das suspeitas de novas irregularidades no concurso, ira falar com o promotor publico e perguntar a ele quais são as ilegalidades, para que seja possível equacioná-las. Em uma frase só, Batista admitiu duas inoperâncias suas, da sua unidade administrativa e de seu chefe imediato, o prefeito Fernando Carli.
A primeira delas é que o procurador se mostra preguiçoso, pois precisa recorrer ao promotor para descobrir quais são, na sua seara (a Prefeitura), os galhos podres. De quebra, admitiu que o concurso tem irregularidades e que as poderia ter resolvido antes – e não o fez.
O que sobre é algo mais ou menos assim: o problema, na visão do procurador Batista, não é ter irregularidades. O problema é o promotor (que cumpre sua função) apontá-las. Este brilhante raciocínio do procurador já havia sido utilizado por um diretor da Surg (a companhia viária da cidade), quando da instalação daquele histriônico monumento ao cavalo do tenente Diogo de Azevedo Portugal, na avenida Manoel Ribas. Questionado sobre a situação de perigo que o tapume em torno da obra (em andamento à época) estava causando aos motoristas, tal diretor saiu com essa: o tapume não é o caso, mas sim a falta de atenção dos motoristas. Mais elementar do que isso, impossível. Tontos, na visão do sujeito da Surg, eram os motoristas. É, o páreo é duro: quem é o sargento Garcia de Guarapuava? O procurador ou o diretor da Surg?
E, por falar no cavalo do tenente, dia desses me ocorreu que a obra parece ter sido inspirada em algum quadro de Henri de Toulouse-Lautrec, um pintor francês do seculo 19 desvairado que adorava desenhar figuras com corpos desproporcionais.
Só que Lautrec era um gênio, enquanto que quem criou o cavalo (e pôs o tenente a contragosto, de tão pequeno que foi esculpido) parece ser um mero vassalo do prefeito de Guarapuava, que deve se acabar de tanto prazer paranoico toda vez que cruza em frente à mais simbólica das obras de sua administração, ficando frustrado somente por não ter conseguido ainda subir no cavalo e (carrancudo e sob aplauso de dois ou três asseclas) gritado 'touché!', enquanto seu filho mais novo tenta desesperadamente acender um rojão para comemorar mais um gesto doidivanas do chefe dos sargentos Garcia.

22 de mar de 2011

Rondó do Cavalão

Jornalista (dos bons) e professor (além de leitor de Circulando), Rogério Camargo, ao se deparar com o texto desta semana da coluna, enviou um poema seu, bastante apropriado para o assunto em questão. Chama-se Rondó do Cavalão:


O cavalão lá parado
E as mulas aqui correndo...


Tua beleza de Pérola
Aos poucos esmaecendo.


O cavalão lá parado
E os burros trabalhando...
O sol tão claro lá fora,
E em minha alma - geando!


O cavalão lá parado
E os asnos aqui orneando...
A estrela em Belém caindo
E as gentes todas olhando...


O cavalão lá parado
E a jumentada passando...
Há tanta flor nos canteiros
E as casas desmanchando...


O cavalão lá parado
E o potril festejando
Os borregos no buraco,
E os jericos definhando...
O sol tão claro lá fora
O sol tão claro, meu Deus,
E em minha alma - geando!

E o comércio, ó...

Andei recolhendo alguns comentários e informações de conhecidos sobre o comércio de Guarapuava e fiquei apavorado com o que ouvi. Algo mais ou menos assim: uma conhecida metalúrgica da cidade, cujo nome é o mesmo de um dos bairros mais elegantes do município, instalou um portão em uma residência no bairro Santa Cruz. A fechadura da peça deu problema e, quatro meses depois da colocação do portão, o proprietário da metalúrgica ainda não voltou ao local para fazer o conserto. Ainda que tenha recebido pagamento há quatro meses!
Em outra situação, também no Santa Cruz, uma empresa de jardinagem obteve pagamento integral para colocar grama em uma casa, na área da calçada do imóvel. Três meses depois, o serviço permanece incompleto. No centro da cidade, no primeiro semestre do ano passado, um corretor de uma conhecida imobiliária fez a avaliação informal de uma residência mas, antes mesmo de informar ao proprietário quanto ele acreditava que valia o prédio, apareceu no local com um comprador em potencial, sem ao menos saber se o proprietário concordava com a tal avaliação monetária.
Alguns amigos que vem de fora também se espantam com uma explicação um tanto recorrente em determinados segmentos do comércio toda vez que ligam para fazer um orçamento: ' agora tá meio apurandinho, sabe?'. Conheço um sujeito do Trianon que ligou para uma empresa de assistência técnica a aparelhos de ar condicionado no começo de fevereiro deste ano. O proprietário atendeu e disse que somente seria possível ir ao local para checar o aparelho e fornecer orçamento depois de 21 de fevereiro. As partes agendaram, então, para o tal 21 de fevereiro, pela manhã. Quando escrevo estas linhas, no final da noite de uma segunda-feira, 21 de março de 2011, o morador do Trianon ainda aguarda a visita.
É claro que estou contando apenas alguns episódios mas parece-me que são bastante sintomáticos Há empresas serias e eficientes no comércio guarapuavano. De vidraçarias a revendedores de bicicletas, passando por lojas de persianas, por exemplo, dentre outros casos. Mas tenho a impressão de que elas são exceção. Uma conhecida rede de supermercados na cidade insiste em divulgar um produto como sendo uma determinada marca de azeite de oliva quando, na real, é óleo feito com polpa de azeitona, conforme descrito na própria embalagem do produto. Enquanto 'engambelar' for uma palavra da moda no comércio de Guarapuava, o capim continuará sendo nosso, como bem dizia Paulo Francis...

E o Mintendi?

Alguém sabe onde anda o Mintendi? E o irmão do Mintendi, aquele do 'confiança no futuro'?

17 de mar de 2011

O primeiro dia do blog do Circulando

O blog encerra seu primeiro dia no ar (17 de julho de 2011) com quase 100 acessos, boa parte deles originados a partir do link na Rede Sul. O Twitter colaborou bastante igualmente. Teve inclusive acesso a partir da Oceania e Estados Unidos.

Quer uma foto ao lado do prefeito?

Ganha um sorvete seco com um apito de brinde quem acertar onde deverá estar o prefeito de Guarapuava no próximo sábado à noite, dia 19. Sim, é altamente provável que ele esteja no ginásio Joaquim Prestes, acompanhando a luta entre Célio Rodrigues e o português Fernando Zenga. É claro que o chefe do Executivo local pode fazer o que bem entende aos sábados à noite. O curioso da história é o site da Prefeitura de Guarapuava dar mais destaque ao combate do que à nova meta de mandar limpar os terrenos baldios da cidade.
No final da noite de quarta, 16 de março de 2011, quando escrevo estas linhas, o site municipal dedicava um punhadinho de linhas ao assunto dos terrenos, além de uma curiosa foto (minúscula) que insinua que, em vez ajudar na organização de determinado terreno, o caminho esta é sujando o local. Basta ver http://www.guarapuava.pr.gov.br/noticia.php?idNoticia=7700.
Ao mesmo tempo, a disputa entre Célio e Fernando ocupa destaque na homepage, com uma megafoto do lutador guarapuavano. O tamanho desta imagem dá bem a dimensão do que, para Fernando Ribas Carli, é ou não é prioridade na gestão da cidade. Não faz muito, Carli recebeu o jogador de futebol Cléo (atua na Sérvia ou algo assim) em seu gabinete e mandou clicar seu sorriso ao lado do atleta. Fico a pensar que, se um morador comum de Guarapuava for à sede da Prefeitura tentar falar com Carli sobre determinado problema da zona urbana (ou rural), é bem provável que encontre a porta fechada. Mas, se for para bater uma chapa do lado do sujeito, talvez role o encontro.
Enquanto isso, no mundo real, o link sobre os buracos de Guarapuava (http://maps.google.com/maps/ms?source=s_q&hl=en&geocode=&aq=&ie=UTF8&hq=&hnear=Guarapuava+-+Paran%C3%A1,+Brazil&msa=0&msid=208673235890319341963.00049d115654617157140&ll=-25.409012,-51.467557&spn=0.012521,0.01929&t=h&z=16) já bateu na casa das 7 mil visualizações. Uma das postagens mais originais relembra que a plaquinha dizendo que a Saldanha Marinho será revitalizada está amarelando e que a tal plaquinha está situada distante uma quadra da casa de Fernando da Maçã, o pitoresco diretor da Surg, que cuida (sic) da pavimentação urbana. Das duas, uma: ou o sujeito só anda de carro oficial (que, se cair numa panela, não terá o conserto pago por ele) ou Carli acha que nem o diretor da Surg merece o asfalto lisinho que só a rua da casa do prefeito tem.

16 de mar de 2011

Guarapuava natalina, será que os argentinos têm razão?

(Publicado originariamente no segundo semestre de 2010)

Saí a caminhar pela noite da cidade, às vésperas do Natal. Um frenesi noturno, com as pessoas carregadas de sacolas, abraçando-se, rindo de sua própria condição de bem-estar com a vida ou algo assim. Cheguei a me perguntar se não teriam razão os argentinos, que em diversos lugares (sobretudo no interior) ainda mantêm o hábito de fechar o comércio durante boa parte da tarde, abrindo à noite por mais horas em consequência. Guarapuava me pareceu bastante alegre na noite. Espírito natalino, dirão alguns. Talvez, mas o fato é que a cidade estava mais bonita nesta noite.
Pois eu caminhava sossegadamente quando ouvi o som de uma banda não muito longe: na esquina das ruas XV e Saldanha Marinho, a Bandinha de Noéis da Prefeitura alegava um tanto mais um punhado de gente. Excetuando-se pelo rebolado indecente do papai Noel (um dos 20 integrantes do grupo), a qualidade da apresentação era ótima. Em certa altura, a regente da Bandinha desatou a falar, como se uma cerimonialista fosse, apresentando cada integrante e relatando sobre o projeto. Pois quando ela desatou a falar, desandou – não havia um microfone ali para a moça poder se fazer ouvir o suficiente. Ah, este clima natalino que deixa as pessoas eufóricas, a pé ou de carro, provocando intenso barulho enquanto a regente fala!
Naquele instante, senti falta do prefeito de Guarapuava, o mais novo expert em cerimoniais da região. Estivesse por ali o sujeito, mandaria colocar um microfone para a moça – e para ele, claro. Lamentavelmente, o prefeito não se fazia presente, assim como seu assistente de palco Bernardo, sobre o qual me contaram dia desses, que, em um dos recentes jogos das finais da Série Ouro do futsal do PR no ginásio Joaquim Prestes, aboletou-se em uma das cabines de Imprensa, com alguns parceiros, ocupando espaço de profissionais que estavam para trabalhar.
Bem, percebida a falta do prefeito, fiquei a prestar atenção naqueles que ali observavam o espetáculo. Giro o rosto à minha esquerda e vejo dois policiais militares. Momento seguinte e uma senhora chega com duas crianças (a maior devia ter oito, nove anos) e, brava e gritando, ela diz 'vocês fiquem aqui, não saiam daqui'. Em seguida, a mulher (avó das meninas?) se vira e, com duas amigas/parentes, entra em uma loja próxima dali – presentes natalinos devem ter ido adquirir. Os PMs, estupefatos, olham as crianças ali largadas, enquanto as três senhoras (no melhor estilo cajazeiras) se refestelam na loja.
Salvo melhor juízo, as duas crianças pertencem a uma conhecida família do ramo hoteleiro de Guarapuava, com estabelecimento na mesma rua XV. E não é que a apresentação da Bandinha acaba e nem sinal das senhoras cajazeiras? Um dos policiais decide levar as garotas até o interior da loja, onde continuam as três. Normalidade retomada, o PM retorna à viatura e o tempo segue.
De minha parte, resolvo atravessar a rua e continuar meu passeio. Noto que, na faixa de segurança, carros com placa de Guarapuava não dão preferência aos pedestres. Uma família – pai, mãe e filha provavelmente – se aproxima da lateral da via e aguarda. Um motorista em uma Scenic azul (placa azul) cede a vez à família. Olho bem e vejo que, dentro do veículo, também há uma criança, de colo. Fico ali mais um pouquinho e chega um garoto educado – a bordo de uma Pajero preta, ele também para na faixa de segurança e permite a travessia dos pedestres. Na placa do automóvel, leio 'Pato Branco'.
É, Cazuza tinha mesmo razão. Bobeira é não viver a realidade.

Desça do cavalo de pau, prefeito

(Publicado originariamente no segundo semestre de 2010)

Em vez de ficar mandando ridículos recadinhos ameaçadores, o prefeito de Guarapuava deveria é descer do seu cavalo de pau imaginário e começar a governar direito a cidade. Fernando Ribas Carli, o decadente prefeito de Guarapuava, bem que poderia começar por:

    • Acompanhar a equipe de garis que recolhe diariamente os detritos da cidade, auxiliando-os diretamente em seus serviços. Estes, sim, dignificam o Poder Público local, com sua eficiência em qualquer tempo e a qualquer horário;
    • Desmontar aquele ridículo monumento de Azevedo Portugal e seu cavalo deformado, que tanta zombaria tem provocado Brasil afora sobre Guarapuava. Neste caso, recomendo ao prefeito que vá conhecer Salta, na Argentina, onde a preservação da memória coletiva é feita com a devida seriedade (vide foto ao lado);
    • Passar a responder os e-mails enviados para o prefeito@guarapuava.pr.gov.br. Enviei duas mensagens e até hoje as contestações não vieram. A primeira que remeti é de fevereiro deste ano;
    • Não inaugurar duas vezes uma mesma obra, como bem retratou esta Rede Sul de Notícias (RSN) por estes dias, referindo-se ao Aquacentro;
    • Construir as creches que estão previstas desde 2006, igualmente conforme noticiado há pouco pela RSN;
    • Asfaltar diversas ruas em vários bairros da cidade, em vez de recapear somente as do Centro;
    • Conhecer a gestão de cidades como Nova Petrópolis (RS), Jaraguá do Sul (SC) e Toledo (PR), lugares onde a Prefeitura dá a devida conta do recado;
    • Ordenar que alguns secretários e assessores municipais trabalhem sempre, cumprindo suas funções técnicas, em vez de circularem pela cidade no melhor estilo 'maria-vai-com-as-outras';

Há mais, claro, que poderia ser sugerido ao chefe do Executivo local. Mas creio que estas tarefas já estão de bom tamanho, para começo de conversa. Mintendi, caro prefeito? Ou quer que eu desenhe?

Um fiasco, um chapéu alheio e uma frase sábia

(Publicado originariamente no segundo semestre de 2010)

Dois leitores da coluna enviaram informações interessantes nos últimos dias. Não sei se verdadeiras, mas que cabem reprodução aqui, dado o peculiar momento em que vive Guarapuava: o primeiro deles disse-me que, dias atrás, um certo candidato a deputado estadual (irmão, aliás, de um ex-deputado estadual com base eleitoral em Guarapuava e que renunciou ao mandato no ano passado) esteve no distrito da Palmeirinha, para fazer um discurso à noite. Montado o palco, notou-se que a plateia não ultrapassava a marca de 10 pessoas, cabos eleitorais não contabilizados, claro. Um fiasco, em suma.
O outro leitor apontou que, domingo desses, o prefeito de Guarapuava subiu em um palanque na região que divide os bairros Bonsucesso e Conradinho e prometeu asfalto em várias ruas daquele pedaço da cidade. Detalhe: o palanque em questão havia sido estruturado para um comício do mesmo candidato, filho do prefeito, aliás. Sim, ao que tudo indica, o candidato estava fazendo festa com o chapéu alheio, já que, até onde se sabe, o mesmo não exerce cargo público na Prefeitura.
E por falar em cargo público, lembrei do seguinte. Não faz muito e o Diário de Guarapuava publicou uma série de entrevistas com concorrentes a deputado estadual e a federal que tenham base no município. Apenas um candidato não quis conceder entrevista. Adivinhe quem? Sim, o filho do prefeito, alegando problemas na agenda. Fiquei a pensar por quais razões um sujeito que quer exercer um mandato público não quis falar com o Diário, em uma excelente oportunidade de finalmente contar a todos quais propostas públicas têm a apresentar. A explicação provável é que o referido candidato não deve ter proposta séria alguma. Ou mesmo proposta de qualquer natureza, exceto a de se beneficiar e a contemplar politicamente seus apoiadores mais diretos.
Tornar deputado um sujeito assim pode ser a confirmação de que boa parte da sociedade quer apenas é pão e circo. Certa vez, quando criança, vi um muro pichado com a frase 'cada povo tem o governo que merece'. É impressionante quanta sabedoria comporta uma única frase. E é impressionante quanta engambelação pode conter um slogan eleitoral como 'confiança no futuro'. Mintendi?

Uma sugestão de leitura, prefeito

(Publicado originariamente no primeiro semestre de 2010)

Opa: tem slogan novo no ar, algo como Guarapuava 200 anos, pronta para o futuro. É ao menos o que está descrito no site da Prefeitura. E eu que achava que o futuro seria construído sobre uma boa base do presente. Estava enganado, afinal.
Vejamos apenas dois exemplos: os buracos nas ruas do bairro Santa Cruz voltaram – e nem chuva forte há para poder culpar; e em Entre-Rios, vários trechos urbanos também ostentam panelas, mas, ao que parece, importante mesmo é a Secretaria Municipal de Turismo mandar instalar um portal na entrada da comunidade.
Estes são somente dois e pontuais casos. Daria para citar ainda a enormidade de terrenos baldios sem fiscalização e assim por diante. De fato, estamos diante de um modo peculiar de administrar uma cidade, baseada, digamos, no estilo caudilho e xucro, onde o importante é sair de vez em quando pelas ruas da cidade com um parente desconhecido a tiracolo, tentando torná-lo bem visto pela população (com vistas à eleição), além de circular pelo centro a bordo de seu carro pessoal com um auto de infração de trânsito colado no vidro frontal, resultado de um estacionamento feito sem o devido cartão. Sim, salvo melhor informação, o prefeito de Guarapuava foi multado na quarta-feira (dia 7) pela manhã. Quem almoçou em um conhecido restaurante na rua Brigadeiro Rocha viu o automóvel particular do prefeito ali estacionado, com o referido auto.
O fato é que fico a pensar de onde vem tanta inspiração para mal governar Guarapuava. Deixo duas pistas: no final do século 19, Ebenezer Howard, um urbanista inglês, lançou o livro To-morrow, propondo uma idílica cidade-jardim. Também no século 19, antes de Howard, outro maluco havia propalado ideias extravagantes sobre vivência em sociedade, o filósofo francês Charles Fourier, com seus falanstérios.
Melhor faria o chefe do Executivo local se dedicasse tempo à obra do historiador americano Lewis Mumford, chamada A cidade na história. Demoraria um pouquinho para dar cabo no livro (são 700 páginas) mas seria um tempo muito bem empregado e que lhe proporcionaria algumas sugestões de como parar de tapar o Sol com a peneira.

Buffalo Bill em Guarapuava?

(Publicado originariamente no primeiro semestre de 2010)

Há algumas semanas tenho pensado nas razões que levam a atual administração de Guarapuava a se empenhar tanto nessa ideia (agora fixa) de revisar a memória da cidade e passar a defender, por todos os lados, que Guarapuava completa 200 anos em 2010. Por estes dias, tive um estalo: Tombstone. E outro estalo: Buffalo Bill.
Por volta de 1880, Tombstone era um vilarejo com ruas poeirentas no Estado americano do Arizona. Duelos nas vias públicas, que mais tarde seriam eternizados pelo Cinema, eram comuns, assim como lixo pelas ruas, animais por todos os cantos e assim por diante. Não raro, outros espetáculos degradantes aconteciam, à vista geral.
Naqueles tempos também, Buffalo Bill fazia sucesso pelos Estados Unidos afora. Ele havia montado uma espécie de circo, que incluía uma dúzia de atrações bizarras. Buffalo, que ao longo da sua trajetória artística, se uniria também a Touro Sentado (um cacique sioux) e a Will Bill Hickok, um notório ora xerife, ora bandoleiro. Buffalo Bill, à sua moda, era um fanfarrão.
Os tempos mudaram, claro, mas também ando com uma ideia fixa nos últimos dias: há algumas semelhanças entre Guarapuava e Tombstone. E, quem sabe, tenhamos também, lamentavelmente, nosso Buffalo Bill. A Guarapuava de agora ainda guarda vestígios tristes do século 19, motivo que pode estar levando a Prefeitura a insistir tanto na lembrança dos 200 anos. Não é preciso sair muito da zona central para notar que as calçadas não existem e que fiscalização não há; asfalto de boa qualidade é luxo para poucos; há dúzias de faixas de segurança em pontos inadequados, que, em última instância, contribuem para obstruir o trânsito nos cruzamentos, provocando situações de perigo para condutores e pedestres; no bairro Pérola do Oeste, pelo que li nesta Rede Sul de Notícias (RSN), as baratas mandam no pedaço há mais de três anos; e, não bastasse isso, agora crianças andam caindo em fossas instaladas em escolas municipais, também conforme noticiado pela RSN.
Alguém há de perguntar: teria Guarapuava o seu Buffalo Bill? Uma entrada para a primeira fila do circo para quem acertar a resposta.

Guarapuava pronta para o futuro. Então, tá

(Publicado originariamente no primeiro semestre de 2010)


Entro no site da Prefeitura de Guarapuava e me espanto diversas vezes. No topo, há um banner alardeando os 200 anos da cidade, com os dizeres 'Guarapuava 200 anos, pronta para o futuro'. Vejamos o quão pronta a cidade está: as calçadas, quando existem, estão decadentes em muitos bairros; há pilhas de terrenos baldios sem a devida conservação e, o pior, sem a fiscalização que a lei municipal estipula; a industrialização continua tímida, mesmo depois dos '200 anos'; o prefeito agora deu para sumir nos momentos mais graves de crise institucional; muitos moradores mais antigos de Guarapuava passam boa parte de seu tempo desdenhando de seu próprio lugar; e os motoristas, via de regra, não sabem para que serve uma faixa de segurança para pedestres.
Não, caro prefeito, a cidade não está pronta para o futuro. Como diz a sabedoria popular, ao propalar isso, há apenas uma vã tentativa de tapar o Sol com a peneira. E olhe que citei apenas alguns exemplos. Mas há mais preciosidades na homepage da Prefeitura: no link dedicado a biografar o chefe do Executivo, há 21 linhas de texto a louvá-lo. No link do vice, nenhuma, nada, zero, o que, convenhamos, é um excelente indicativo do desprezo com que o prefeito trata seu vice, tema, aliás, que esta Rede Sul de Notícias já retratou em diversos momentos.
No final das linhas elogiosas sobre o prefeito, está escrito que o mesmo é um 'profundo conhecedor da história de Guarapuava', além de 'apaixonado' pelo município. Fico a pensar o que seria do patrimônio arquitetônico da cidade se ele não fosse um 'profundo conhecedor' e um 'apaixonado'. Se, com tamanha dedicação a política de preservação é tenebrosa, imagine como estaríamos se o prefeito tivesse outra visão do tema.
Pensando bem, talvez eu tenha a chance de perguntar diretamente ao prefeito algumas questões relacionadas ao cotidiano da cidade. No mesmo link sobre ele, há o e-mail prefeito@guarapuava.pr.gov.br. Acho que enviarei uma mensagem a ele em breve. Opa, acabo de lembrar: remeti um e-mail a ele em 21 de fevereiro passado, às 23h48. Até agora, a resposta não chegou. Como diria Batman, conseguirá o prefeito retornar dois e-mails de um mesmo remetente em tão pouco tempo?
Afinal de contas, um mês é pouco, não é mesmo, prefeito?

A gestão do choque de Guarapuava

(Publicado originariamente no primeiro semestre de 2010)

Em Guarapuava, lamentavelmente, o quadro está assim: a cidade está sem piloto, nem cinto, nem avião. Até o instante em que escrevo estas linhas – quase 100 horas depois da tragédia que vitimou o atleta de futsal Robson -, o prefeito local não havia aparecido em público para se manifestar sobre o caso, embora, em última instância, a responsabilidade final pelo ginásio onde o acidente aconteceu seja do chefe do Executivo Municipal.
Em Guarapuava, portanto, a tática é assim: o que vale é a 'gestão do choque', e não o 'choque de gestão', marca de algumas das mais eficientes prefeituras destes País. É impressionante a capacidade da atual administração em deixar a população perplexa, negativamente perplexa. Ou, ao menos, boa parte desta população, já que muitos também se calam diante de tantas barbaridades em sequência.
Eis um bom exemplo: entro no site da Prefeitura e vejo que o principal destaque é um evento técnico sobre a cultura do milho. Não tiraram nem a chamada que menciona a 'Copa Futsal Guarapuava 200 anos'. Se alguém desejar saber mais sobre o episódio por meio do site municipal, encontrará apenas uma nota lacônica de pesar. Precisará o internauta recorrer à mídia local, estadual, nacional e até de fora do Brasil. Aliás, por falar em Imprensa, li uma reportagem dias atrás que fazia a menção a determinado secretário municipal, que teria comparado o Ginásio Joaquim Prestes a um coliseu, aqueles espaços monumentais da Antiguidade onde espetáculos mortais aconteciam.
O fato é que a cidade está sem rumo. Mas, em paralelo à letargia que ronda a administração municipal em boa medida, há de se considerar a passividade da maior parte dos moradores quando de casos assombrosos como este do futsal. Devem estes ainda crer que Cidadania é somente o ato de votar de tempos em tempos, perpetrando a concepção errada de que Cidadania é um dever – e não um direito. Tenho a impressão de que há uma satisfação em larga escala pelo fato de termos algumas praças bem cuidadas, além de alguns jardins bonitos que ajudam a encobrir as grandes mazelas municipais, aí incluindo o ridículo estado da via de acesso secundário a Guarapuava, a partir do quilômetro 338 da BR-277. Tenho a impressão, enfim, de que nos contentamos com tão pouco.
Por vezes, fico pensando se o prefeito tem o hábito de se deslocar por aqueles lados da rua XV em seu automóvel particular. Possivelmente não, pois, no máximo, cruza por lá em veículo oficial, já que não é dele mesmo e, em caso de quebra, não sairá do seu bolso o valor do conserto.
Ao prefeito, nesta edição inicial da coluna Circulando, deixo a sugestão de que percorra a cidade dirigindo, por exemplo, um ônibus urbano, para sentir os solavancos das ruas esburacadas. Também lhe proponho a parar de pensar que, enquanto prefeito, está sempre viajando na primeira classe das aeronaves, senão que possa ser também um daqueles passageiros que tomam um avião mais velho e se sentam nas últimas fileiras, bem ao lado da turbina que está por cima da asa, onde a realidade é mais dura, mais sofrida, tal qual a situação da família do jogador Robson, que merecia e merece muito mais do que o tratamento que tem recebido até o momento.
Quem sabe aí, e finalmente, a atual administração passe a oferecer a Guarapuava um choque de gestão, algo bem mais relevante e produtivo para a sociedade do que ficar gastando dinheiro público em uma tétrica campanha de (duvidosos) 200 anos da cidade.